segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A Espetacular Vida de Suzane von Richthofen

Capítulo de Hoje: O Casamento
Por: Juciane Aleixo

Um casal foi encontrado morto dentro de casa em um bairro nobre de São Paulo no dia 31 de outubro de 2002. As investigações iniciais trabalhavam com a hipótese de assalto, mas dias depois foi descoberto que Manfred e Marísia von Richthofen foram assassinados pelos irmãos Daniel e Christian Cravinhos, a mando de Suzane von Richthofen, filha deles.

Jovem, bonita, pertencente a classe alta e assassina dos próprios pais. O caso reunia vários elementos a serem explorados pela mídia, que  não demorou muito a repercuti-lo em todo país.  Rádio, televisão e impresso traziam diariamente novas informações envolvendo o caso. Uma novela que até hoje ainda rende capítulos na imprensa brasileira.

Suzane foi julgada e condenada pela morte dos pais no ano de 2006 e sempre que um fato novo acontece na vida dela, é amplamente divulgado pela mídia nacional. A novidade da vez é o casamento da presidiária com a também detenta Sandra Regina Ruiz, condenada por sequestro e assassinato.

Logo os veículos começaram a explorar a união do casal. O Jornal Correio, por exemplo, trouxe em sua matéria de capa de hoje, 30/10, o perfil da companheira de Suzane. "O casamento de Suzane von Richthofen com Sandra Gomes é o babado do momento", diz o texto da manchete. O termo babado do momento e uma fotomontagem com Suzane vestida de noiva ao lado de Sandra vestida com smoking já nos dão indício de como foi feito o encaminhamento da matéria.

A reportagem tem como título "Drão, o amor de Suzane" e subtítulo "Quem é Sandrão? Foi ela que roubou o coração de von Richthofen". Não fosse o sobrenome já conhecido, não seria difícil pensar que se trataria de mais uma notícia sobre celebridades em um portal de fofoca qualquer.

O jornal aborda o caso com sensacionalismo, enfatizando acontecimentos que não são relevantes para a sociedade. O que acrescentará ao leitor, em termos de conhecimento crítico, saber quem é a esposa de Suzane von Richthofen?

Assim a notícia foi tratada apenas como mercadoria. Tratar uma condenada pela justiça como celebridade não deveria ser o papel dos jornais, mas essa tem sido uma tendência da mídia na sociedade contemporânea: transformar fatos em espetáculos e tratar as notícias como entretenimento.

Os veículos estão, cada vez mais, tirando o foco da informação e destacando histórias sensacionalistas, visando atrair os leitores para comprar jornal. Assim, o jornalismo ao invés de levar as pessoas a refletirem criticamente está apenas alimentando o público com notícias sem conteúdo relevante, visando o lucro.

"Blogs - Amigo ou Inimigo do Bom Jornalismo?"

Por: Krishnamurti Silva de Lima
               
O quadro "Proteste Já" do programa CQC - Custe o Que Custar - da Rede Bandeirantes tem por sua essência acatar denúncias da população sobre irregularidades governamentais e ir investigá-los, interrogando os possíveis responsáveis e buscando soluções para as problemáticas que perturbem o bem-estar da localidade. Mesmo que caracterizado como um programa de Infotenimento (Termo criado por Dejavite [2006] que significa "informação com entretenimento"), os princípios básicos do jornalismo nesse quadro são respeitados, como a apuração dos fatos, a presença das fontes fundamentais que ilustram o problema, e a tentativa de ouvir todos os lados citados nessa problemática. Por enfrentar quase sempre autoridades políticas, os repórteres mexem com os brios dos representantes ao questionar tais anomalias públicas e provocam uma tensão que nem sempre terminam só em diálogos acalorados ou na falta total dele; Agressões e calúnias são frequentemente visíveis. 
            No começo da última semana de Outubro (26), a equipe do CQC com o repórter Oscar Filho foi até a cidade de Caxias, no Maranhão. O tema a ser abordado era o grande número da mortalidade infantil que o hospital municipal da cidade passou a apresentar nos últimos meses. Entre parentes das vítimas da situação e populares, o prefeito de Caxias, Léo Coutinho (PSB) também foi procurado para dar sua explicação sobre essa situação. No auge da entrevista, os ânimos de ambos se exaltaram e o prefeito foi chamado pelo repórter de "sem caráter" por se esquivar das perguntas feitas. - Por mais que o profissional da impressa seja humano e tenha sentimentos, o respeito ao entrevistado é imprescindível -. Após o término da fabricação da matéria, notícias surgiram em blogs atestando o acontecido, mas um em especial tratou-se de julgar o acontecimento revertendo e desqualificando o jornalista. O título e sua matéria apresentando discurso odioso e com termos risíveis apontava que o repórter estaria sob efeito de psicoativos e além de ofendido o representante majoritário de Caxias, teria contratado os serviços de profissionais do sexo e não pagado. A matéria não apresentava nenhuma prova concreta sobre tais atos, somente vídeos amadores contendo a entrevista que virou bate-boca.
                O termo blog – que a priori surgiu como weblog – brotou na internet antes dos anos 2000. Em tradução livre, blog significa “diário da rede” e fundamentalmente surgiu para que os seus donos postassem informações constantes sobre suas próprias vidas. Se no final de 2000, a quantidade de blogs mal chegava a 50, três anos depois mais de quatro milhões já apareciam na “blogosfera” abrangendo seu significado; Agora abarcam também o âmbito corporativo, organizacional e o jornalístico.
            A constatação que se pode ser feita sobre o uso dos blogs para as características jornalísticas é a que se valendo do anonimato da Internet, muitos se aproveitam para divulgar informações inverídicas e caluniosas sobre um grupo ou alguma pessoa em específico – como no caso da “pseudo-notícia” analisada nesse texto. O Marco Civil da Internet sancionado pela Presidenta Dilma Rousseff em Junho desse ano rege, entre outras coisas, que em caso de calúnia e difamação, o provedor que hospeda o blog caluniador deve também ser processo e medidas legais para o descobrimento do seu autor serão automaticamente feitas.

A discussão sobre o papel dos blogs no jornalismo tem vários vieses, mas um dos principais é o papel que esse deve apresentar para um bom cumprimento das normas dessa nobre profissão, pois o que entendemos é que a internet é um meio hoje, sine qua non para o jornalismo. 

CRÍTICA: Matérias sobre o casamento de Suzane Von Richthofen, nos jornais online "O Dia" e "Correio 24 horas" e a "Revista Veja Online"



Por: Eliane Simões


           Na semana pós-eleições presidenciais, um caso bastante peculiar vem sendo líder de acessos nos sites de notícias, desde o último dia 28 de outubro: a união homoafetiva entre a jovem Suzane von Richthofen e Sandra Regina Gomes, mas conhecida como Sandrão. Digo peculiar, não pela natureza da relação, que deveria ser vista como algo naturalmente aceito, mas pela vida egressa do casal. Suzane e Sandra estão no presídio feminino da cidade de Tremembé-SP, e foram condenadas a crimes considerados hediondos. E como agravante, Sandrão é ex-mulher de Elize Matsunaga, que matou e esquartejou seu marido em 2012, e também se encontra presa no mesmo local. Um roteiro perfeito de novela; triângulo amoroso inusitado, quase um romance policial. Ingredientes perfeitos para que qualquer jornalista "faça festa", e consiga chegar aos TT's (Tredding Topics/Assuntos mais comentados do Twitter).
            Verificando a mesma notícia nos sites dos jornais "O dia" (Suzane Von Richthofen se casa com sequestradora em presídio de SP)  e "Correio 24 horas" (Caso de Suzane von Richthofen com 'Sandrão' é antigo, diz agente penitenciária), e da "Revista Veja online" (Suzane Richthofen se casa dentro da cadeia. Com uma sequestradora)  é inegável as semelhanças nos textos,  o que parece soar como release ou "notícia plantada",  com uma leve variação de informações entre um e outro. Mais um fator é que todas as matérias não possuem um rosto, uma voz, uma subjetividade notadamente visível, já que não foram assinadas por jornalistas, mas pela redação - um conglomerado uniforme.
              Porém, o mais preocupante é como a construção do texto se formou ou se espetacularizou (como preferir), e tamanha a incidência de um preconceito velado na abordagem. Explico: as matérias expõem com força um certo descontentamento, ou estranhamento de seus autores, diante do triângulo amoroso entre três mulheres. E isso fica claro, quando todos os textos expõem o fato delas terem "regalias" na penitenciária por assumirem o relacionamento afetivo, como se duas pessoas do mesmo sexo que assumem um relacionamento amoroso na prisão deveriam ser privadas de cultivar esse sentimento, ou mesmo dormirem juntas como qualquer casal. Palavras como   "desfrutam de privilégios oferecidos apenas a casais"(Correio 24 horas), "com o casamento, Suzane tem o direito de dormir com a companheira (...) Com esta nova regalia (...)" . (O Dia), "cela especial" (Revista Veja Online)
              Aqui não se exime de nenhuma das três a culpabilidade por seus crimes, ou muito menos, se "perdoa" ou as "absolve" de qualquer coisa, apenas se entende que não cabe ao jornalista formar juízo de valor, mesmo que de maneira tênue ou subliminar. De acordo com o artigo 5º da Constituição Federal, "todos são iguais perante a lei", e se a carta magna da nossa federação rege isso, quem somos nós, detentores do poder da escrita e da divulgação dos fatos, trabalhar com a diferenciação entre os seres? 

REFERÊNCIAS:

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Imprensa parcial: Informação prejudicada


Por Taiza Felisberto          
A mais de um ano os brasileiros têm intensificado sua busca por mudança. Em junho de 2013 milhares de brasileiros foram às ruas de todo o país reivindicando menores tarifas nos transportes públicos. E logo o protesto passou a ser  por melhores condições de saúde, educação e segurança, além de salários mais dignos para profissionais dessas áreas. Em 2014 o foco das manifestações voltou-se aos altos custos de  investimentos para sediar o campeonato mundial de futebol da FIFA. Nesta busca por mudanças, parte dos brasileiros luta por uma reforma  no sistema político, tema discutido do por organizações e movimento da sociedade civil brasileira desde 2004. 
O plataforma pela reforma do sistema político é estruturada em três eixos principais:  Fortalecimento da democracia direta, reforma do sistema eleitoral e controle social do processo eleitoral. Para o movimento, a democracia não se resume ao direito de voto, mas trata-se das formas de relacionamento e organização da sociedade. Com a implantação dos eixos citados a população passaria a ter mais acesso e participação nos processos e decisões  da federação. A busca por essa mudança se intensificou durante o período de campanha eleitoral, quando os militantes da causa fizeram também sua campanha. A presidente Dilma declarou seu apoio ao movimento em sua campanha e priorizou o compromisso em seu discurso de vitória.
Ignorando os benefícios que a reforma do sistema político venha a trazer, o jornal Folha de São Paulo publicou no dia 30 de outubro a matéria intitulada Reforma política é "erro cabal", diz cientista político. Já no título fica clara a posição tomada sobre o assunto, a expressão destacada da fala de Fabiano Santos, cientista político, passa a idéia de oposição, reforçada em todo o texto em que são usadas expressões como: balela, irresponsabilidade, caixa de pandora, desastre, sonho dourado. Todas elas referindo-se a reforma política. E para reforçar a credibilidade de sua fonte o jornal ressalta que é tido como um dos principais estudiosos do legislativo do país.
Fabiano Santos ainda compara a proposta de reforma no Brasil com uma reforma mal sucedida na Itália. O Folha não tem a preocupação de buscar outra fonte que fosse a favor para fazer um contraponto do assunto, assim como não se preocupa em informar ao leitor em que consiste a tal reforma política condenada pela matéria. Simplesmente esqueceram a imparcialidade jornalista. Por trás da figura do cientista político o jornal deixou bem claro sua posição, ressaltando que esse "grande erro" é uma prioridade do governo Dilma.   

O jornalismo está em função de quais interesses?

Por Mariana Ramos

Dias antes do segundo turno das eleições presidenciais, a revista Veja  antecipou a saída da edição do semanário para antes do último debate eleitoral televisionado pela Rede Globo. Na edição, a revista publicou uma reportagem especial em que, supostamente, o doleiro Alberto Yossef declara, em depoimento à Polícia Federal, que o ex presidente Luís Inácio Lula da Silva e a atual presidenta Dilma Roussef tinham conhecimento do esquema de corrupção na Petrobrás.
A repercussão da reportagem em um período de uma corrida presidenciável  acirrada e com  pesquisas que colocavam a atual presidente a frente do seu adversário, tomou conta das redes sociais e dos programas eleitorais. Muitos militantes que apoiavam a reeleição de Dilma Roussef ficaram revoltados com a abordagem da matéria e protestaram na sede da editora Abril, em São Paulo. Os manifestantes jogaram lixo e picharam a fachada do prédio com frases: "Fora Veja" e "Veja mente".
Na reportagem, a Veja vai contra as regras e a ética do jornalismo, ao colocar como fonte um depoimento de um processo que corre em segredo de Justiça, sem dar direito de resposta às pessoas citadas na reportagem. É regra do jornalismo ouvir os dois lados da história, além de investigar e apurar a fundo uma acusação como esta, que poderia mudar os rumos das eleições. Além disso, na matéria o jornalista coloca juízo de valor, além de dá um julgamento prévio aos leitores.
Sabemos que o posicionamento político da revista vai de encontro ao atual governo e que uma reportagem bem apurada e dando voz a todos os envolvidos leva muito tempo. Mas com as eleições se aproximando eles resolveram antecipar a matéria e a edição, vendo o intuito claro do jornalismo a favor dos interesses políticos da empresa.  
Além disso, na reportagem são mostradas acusações sem qualquer prova concreta. Precisando ainda analisar a credibilidade da fonte utilizada, sendo que todo jornalista deve desconfiar de toda e qualquer fonte. É visto que o papel do jornalismo de informar com rigor e ética para formar uma opinião pública democrática foi quebrado nessa reportagem, servindo aos interesses políticos e financeiros da revista por meio da distorção, falta de provas e negligência aos envolvidos citados.  






quinta-feira, 13 de novembro de 2014

DOCES OU TRAVESSURAS?



Um conto jornalístico de suspense, estrelando o Exame Nacional do Ensino Médio e o G1 Petrolina.

Por Heitor Ferreira

No fim de semana (dias 08 e 09 de novembro), a pauta agendada foi o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Como evento de abrangência nacional, a prova é acompanhada pela mídia quase uma mini-final de Copa do Mundo (com o Brasil jogando, claro), desde a véspera ao desfecho, pontuando o que é pitoresco. Mas na tentativa de anunciar a “largada” na cidade, o G1 Petrolina deu um exemplo pouco inspirado de como localizar o fato.
O título faz uma associação inusitada com a prova. Preces e doces? Esses elementos são pontuados fracamente na matéria, e não são relevantes nem com muito boa vontade do leitor. O título parece reciclado de alguma matéria de Halloween que não saiu. Após o título pouco inspirado e um lead descritivo e desinteressante, são apresentadas personagens típicas de notícia sobre o processo seletivo.
Temos a vestibulanda tensa de primeira viagem, pesando as sortes e azares do dia. Só faltou uma dica de simpatia pra fazer a prova bem. Em seguida, a veterana que não parece muito confiante; a concorrente iniciante que diz que se preparou bem, e finalizando com a professora com uma fala-reforço (“[...] o Enem se tornou o processo seletivo mais importante do país [...]”). Todas fazem menções diretas ou indiretas em todas as falas sobre a pressão pré-prova, que não é nada incomum. A fotografia da matéria confunde: é apenas sugerido que as pessoas nas ilustrações são as mesmas que foram entrevistadas, e isso apenas pela posição em relação ao texto. As legendas se limitam à descrição.
O resultado é uma quase-nota um tanto sem foco, que podia ter sido resumida em ainda menos linhas e com um curto título, como: “Começa o ENEM em Petrolina. Candidatos tensos”. Houve exemplos mais completos sobre o preparo de quem ia prestar a prova, e se era para fazer uma abordagem rasa e espetacular em cima de fato comum, talvez fosse preferível esperar os inevitáveis atrasados para a prova. Talvez até eleger uma candidata para concorrer à “musa do ENEM” (que, posto de lado o sensacionalismo, é uma pauta que se bem utilizada rende um tratamento digno ao elemento humano em questão).
Na tentativa de situar o Exame Nacional do Ensino Médio para o leitor petrolinense, o G1 local tem séria chance de ter zerado a pontuação. No fim, o doce deve ser para cortar o amargor que foi ler aquilo, e a reza para afastar o encosto que rondando a pauta. Quem sabe a Amanda Alli (a musa ENEM 2014), que pretende cursar jornalismo, faça melhor quando vier a vez dela.